terça-feira, 3 de julho de 2012

Numa cidade distante da França


            Fugir: Corria o mais rápido possível, sem tropeçar, sem parar. Pulava todos os troncos caídos, as pedras, engolia alguns mosquitos sem querer. Uma vez ou outra algum galho batia em seu rosto e formava um aranhão. Suplicava ofegante que a noite chegasse ou que deixasse de escutar aqueles passos apressados atrás de si. Não olhava para trás, mas escutava os pés ofegantes de Sarug e, por mais que ele corresse, o som não se afastava. Duvidava que Sarug fosse realmente humano, já  havia visto com três flechas atravessadas no coração – imaginou que morreria ali -, mas era esse mesmo homem que agora o perseguia. Efron fora acusado de conspiração, mas queria apenas salvar o pai e o reino, só queria salvá-los.
           
Enquanto dormia, Sarug entrou em seu quarto para matá-lo e – prestes a matá-lo – Efron acordou, viu a lâmina quase tocar-lhe a garganta, correu, correu, correu. Sarug correu também, atrás dele. Continuavam a correr até agora, exaustos (mas não desistiam, só corriam). Efron agora pensava em sua mulher, talvez estivesse sendo levada à forca neste momento. Nesse momento ele tropeçou, sentiu como se seu pé arrancasse, rolou, rolou, rolou. Caiu. Tentou levantar-se, seus braços doíam, não o agüentavam. Deitou, quase desmaiado. Os passos de Sarug se aproximavam, a cada passo, mais aterradores, mais fortes. Viu a imagem daquele cavaleiro sem cavalo crescer a sua frente, sentiu o terror amedrontador que o fazia tremer todo o corpo. Agachou-se ao seu lado.
Efron pôde olhar no fundo dos olhos de seu irmão. Uma lágrima correu pelo rosto de Sarug.
- Por favor, Sarug. Não faça isso, você não pode fazer isso. Eu não os traí, só queria salvar o papai. Você sabe, você sabe que os franceses querem sua cabeça mais que tudo. Se eu não tivesse feito aquilo, agora o castelo estaria em chamas e toda a nobreza sendo dizimada. Nossas cabeças seriam troféus.
- Eu sei, meu irmão – era evidente e sinistro o terror de Efron, seus olhos não mentiam. Sarug olhou para as mãos do irmão – Eu sei da verdade, irmão. O traidor dessa história é o papai. Ele sabia de tudo, sabia da própria morte. Ele quem nos traiu.
Sarug puxou-o e abraçou-o fortemente. Ambos estavam juntos, seus suores e suas lágrimas misturavam-se, formando uma redoma sobre eles, formando um cheiro erótico – como convite para que rolassem sobre aquelas folhas, nus, sem ninguém por perto, enquanto brincavam e provavam um ao outro, se entregando ao desejo. Permaneceram abraçados, unidos, de olhos fechados. Por um instante colaram as cabeças. As bocas ficaram tão próximas que sentiam o hálito do outro penetrar-lhes pela garganta. Tentavam falar, suas vozes misturavam-se, penetravam-se, até serem sufocadas no encontro dos lábios. Pararam, pausaram naquele movimento, formaram um retrato belíssimo sob as árvores, entre rochas verdes. Parados num beijo, as folha ainda roçavam-se sob seus pés. O fôlego começou a extinguir-se, passaram a respirar o ar do outro. Deitaram, rolaram, ainda de lábios entrelaçados. O suor fazia as folhas colarem-se neles, como se vestissem os corpos nus, quase apaixonados. Tentaram falar mais alguma coisa, mas não havia palavras – elas fugiram e os deixaram sozinhos. Repetiram novamente aquela fala sem palavras e juntaram-se, sentiram-se nas línguas. Já estavam quase sem roupas, um dentro do outro, quando Sarug puxou a espada e partiu o coração de Efron em dois pedaços murchos. Ele tossiu sangue, chorou sangue, sorriu quando Efron o beijou novamente e bebeu um pouco daquele sangue entre dentes. Engoliu o sangue e a saliva do irmão como se fosse vinho. Chorou silenciosamente abraçado ao corpo. Abriu a boca para falar algo ao silêncio – mas as palavras ainda não haviam voltado, talvez nunca mais voltassem. Deitou-se ao lado do corpo e fechou os olhos quando empunhou a arma contra o próprio coração já repartido. O sangue escorreu-lhe a emoção, pousou em seu olhar morto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente, critique: