Moro nas gaiolas,
busco minhas asas para me aquecer (cortaram-nas).
Esqueci mesmo de voar,
esqueci de viver,
esqueci de ser quem eu deveria ser,
por isso busco, nesses choques cotidianos,
a explicação de tudo que me é inexplicável,
a razão de todos os números irracionais,
os meus números vitais e imortais.
Morro nas gaiolas,
busco minhas asas para voar (arrancaram-nas).
Me esqueci de comemorar,
me esqueci de respirar,
me esqueci de ver o que eu deveria ver,
por isso busco, nos ruídos corriqueiros,
o porquê dos porquês
ou o querer de viver sempre no mesmo ser,
os seres irresistíveis e insensíveis,
os meus seres invisíveis indestrutíveis.
O morro das gaiolas,
é onde eu busco minhas asas (que nunca tive).
Esqueci-me de buscar o que realmente é necessário,
esqueci-me de escapar as minhas armadilhas,
esqueci-me de me buscar
e me perdi,
por isso me confundo com as possibilidades
- o que eu fui, o que eu sou, o que eu serei, o que eu poderia ter sido -,
todos os poderes que eu poderia,
os meu poderes sem deveres e sem dizeres
Escrito a sangue, tangido à luz da noite, embrulhado no brilho das estrelas. [sem vaidade, apenas a realidade, verdadeira e certeira. com todo amor, todo horror] {aconselhado apenas para humanos e quase humanos}. CUIDADO, MUITOS SE PERDEM NO TORTUOSO CAMINHO!
domingo, 9 de setembro de 2012
Eu fujo de mim
Às vezes acho que sofro,
mas mal conheço o que é sofrimento,
mal sei o que é sofrer,
só tento viver e escrever.
Às vezes me parece que há uma ferida em mim,
uma ferida que arde sem porquê e sem fim.
Uma ferida como todas as feridas
que não localizo e sinto.
Às vezes eu morro nas minhas loucuras
em busca de uma outra vida mais entendida.
E só encontro uma vida desentendida e desmentida,
ainda mais confusa que todas outras vidas.
E é mais vivo que vivo nessas mortes diárias,
ainda menos eu a cada hora,
eu fora de mim
agora
mas mal conheço o que é sofrimento,
mal sei o que é sofrer,
só tento viver e escrever.
Às vezes me parece que há uma ferida em mim,
uma ferida que arde sem porquê e sem fim.
Uma ferida como todas as feridas
que não localizo e sinto.
Às vezes eu morro nas minhas loucuras
em busca de uma outra vida mais entendida.
E só encontro uma vida desentendida e desmentida,
ainda mais confusa que todas outras vidas.
E é mais vivo que vivo nessas mortes diárias,
ainda menos eu a cada hora,
eu fora de mim
agora
domingo, 2 de setembro de 2012
Linhas desentendidas
É nessa saga de viagem
perdida que eu encontro
minha própria inexistência
tão insignificante
entre as loucuras e os sonhos
da cama suada, dos livros
que não li enquanto folheava
ou quando joguei tudo pela escada
do pelos anuais em meses calados,
meses egoístas e pedantes,
meses letrais e cinematográficos,
cheios de opiniões sem importância,
ideias inúteis e ilimitadas
sem criatividade, sem originalidade.
Frases das sobras computadorizadas,
romances de amores submissos,
a tristeza romântica,
insistente em todo organismo;
da tristeza nua, a tristeza por detrás do disco
melancólico e enferrujado de tantas lágrimas.
A tristeza obrigatório, a tristeza presente do futuro
que só recordo quando durmo
e só durmo no sonho triste
além dos limites da fronteira minha
perdida que eu encontro
minha própria inexistência
tão insignificante
entre as loucuras e os sonhos
da cama suada, dos livros
que não li enquanto folheava
ou quando joguei tudo pela escada
do pelos anuais em meses calados,
meses egoístas e pedantes,
meses letrais e cinematográficos,
cheios de opiniões sem importância,
ideias inúteis e ilimitadas
sem criatividade, sem originalidade.
Frases das sobras computadorizadas,
romances de amores submissos,
a tristeza romântica,
insistente em todo organismo;
da tristeza nua, a tristeza por detrás do disco
melancólico e enferrujado de tantas lágrimas.
A tristeza obrigatório, a tristeza presente do futuro
que só recordo quando durmo
e só durmo no sonho triste
além dos limites da fronteira minha
domingo, 19 de agosto de 2012
Sem resposta
Paris está distante agora,
não há mais caminhos, não há como chegar.
Tudo está muito longe,
tudo muito cego.
A chuva arrogante e distante é a mesma chuva que queimou nossas peles no verão,
as nuvens sobrecarregadas são as mesmas nuvens que destruíram nossos topos,
os mesmos topos que copiamos em cada edifício como se fosse fazer diferença,
como se fosse mudar algo,
como se fosse algo.
E o vento ainda canta aquela canção que já nos encantou,
a canção que não decoramos, não lembramos, não nos alegramos quando a ouvimos,
a mesma canção de sempre que as árvores costumavam parar para ouvir,
os pássaros baixavam a cabeça
e nós dançávamos,
nós cantávamos para ninguém ouvir palavra alguma,
nós cantávamos para não ser nada do que precisávamos ser,
nós tentávamos chegar a algum lugar,
algum lugar como Paris,
nós tentávamos.
Mas Paris está distante,
mais distante que qualquer distância,
mais distante que o céu, a vida
num instante infinito distante
não há mais caminhos, não há como chegar.
Tudo está muito longe,
tudo muito cego.
A chuva arrogante e distante é a mesma chuva que queimou nossas peles no verão,
as nuvens sobrecarregadas são as mesmas nuvens que destruíram nossos topos,
os mesmos topos que copiamos em cada edifício como se fosse fazer diferença,
como se fosse mudar algo,
como se fosse algo.
E o vento ainda canta aquela canção que já nos encantou,
a canção que não decoramos, não lembramos, não nos alegramos quando a ouvimos,
a mesma canção de sempre que as árvores costumavam parar para ouvir,
os pássaros baixavam a cabeça
e nós dançávamos,
nós cantávamos para ninguém ouvir palavra alguma,
nós cantávamos para não ser nada do que precisávamos ser,
nós tentávamos chegar a algum lugar,
algum lugar como Paris,
nós tentávamos.
Mas Paris está distante,
mais distante que qualquer distância,
mais distante que o céu, a vida
num instante infinito distante
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Sem amor, sem vida
Nada,
eu aprendi nada do tudo que me ofereceram.
Tudo,
eu fiz tudo com o nada que me deram.
Sempre,
sempre enjaulado no nunca de ser a mesma coisa.
Nunca,
nunca o mesmo sempre com tantas coisas diferentes.
Sim,
sim para tudo que é negativo e contrário.
Não,
não quero receber respostas afirmativas, não quero ser assim.
Morte,
morrer em outros braços enlameados do amor.
Vida,
viver na morte de te amar.
Amor,
eu aprendi nada do tudo que me ofereceram.
Tudo,
eu fiz tudo com o nada que me deram.
Sempre,
sempre enjaulado no nunca de ser a mesma coisa.
Nunca,
nunca o mesmo sempre com tantas coisas diferentes.
Sim,
sim para tudo que é negativo e contrário.
Não,
não quero receber respostas afirmativas, não quero ser assim.
Morte,
morrer em outros braços enlameados do amor.
Vida,
viver na morte de te amar.
Amor,
domingo, 12 de agosto de 2012
Eu quero tudo - menos o nada
Não foi o tédio ou o tejo nem nada
que me fez parar para pensar em caminhar,
foi a vida das vidas vistas pelas vidraças do campo,
foram as rodas imundas das máquinas mortas e devastadoras
de todas as coisas urbanas e humanas, de tudo do nosso mundo.
Foi todo esse asfalto perfumado de dinheiro e tinteiro
que me reinventou e tentou me empurrar para outro lugar,
outro navio, outro avião a me aguardar.
Além de tudo há o som perturbador da pertubação de tanta agitação
que me consome de nome em nome, que me faz, do nada, homem,
o som de tantos insetos enjaulados na minha cabeça -
insetos que gritam e procriam ideias sem ideais,
ideias de velas, inundadas da gordura da alma,
da carne do pensamento que me atormenta com tantas tormentas.
Vem também o vazio das palavras que chovem em mim
e me ferem,
todos os guarda-chuvas estão fechados, emperrados,
tudo da gente está enferrujado e molhado do fogo que chamam de morte,
a mesma morte que enxágua o solo fértil do cemitério,
a mesma morte que movimenta o mundo a viver por medo de morrer,
a mesma morte.
E tento me calar cada vez mais,
mas a voz é forte, é morte,
a voz não cansa, dança dentro de mim,
à espera de esperar uma outra coisa que não eu e minhas ideias sem pensamentos,
outra coisa que não eu
que me fez parar para pensar em caminhar,
foi a vida das vidas vistas pelas vidraças do campo,
foram as rodas imundas das máquinas mortas e devastadoras
de todas as coisas urbanas e humanas, de tudo do nosso mundo.
Foi todo esse asfalto perfumado de dinheiro e tinteiro
que me reinventou e tentou me empurrar para outro lugar,
outro navio, outro avião a me aguardar.
Além de tudo há o som perturbador da pertubação de tanta agitação
que me consome de nome em nome, que me faz, do nada, homem,
o som de tantos insetos enjaulados na minha cabeça -
insetos que gritam e procriam ideias sem ideais,
ideias de velas, inundadas da gordura da alma,
da carne do pensamento que me atormenta com tantas tormentas.
Vem também o vazio das palavras que chovem em mim
e me ferem,
todos os guarda-chuvas estão fechados, emperrados,
tudo da gente está enferrujado e molhado do fogo que chamam de morte,
a mesma morte que enxágua o solo fértil do cemitério,
a mesma morte que movimenta o mundo a viver por medo de morrer,
a mesma morte.
E tento me calar cada vez mais,
mas a voz é forte, é morte,
a voz não cansa, dança dentro de mim,
à espera de esperar uma outra coisa que não eu e minhas ideias sem pensamentos,
outra coisa que não eu
terça-feira, 31 de julho de 2012
Pórtico erótico
Na vivacidade do mundo imundo
eu vivo a mesma eroticidade do nascimento
dum outro tormento de tantos pensamentos
sem razão, sem invenção.
E nos teu olhos olho o óleo fugaz
da nossa paz sem menos nem mais
dos corpos tortos e mortos sem sexo
sem hora marcada depois ou agora.
Romântico e erótico, assim foi feito
o perfeito de viver, escrever e fazer
- com continuar, sem pensar
somente amar e transar
eu vivo a mesma eroticidade do nascimento
dum outro tormento de tantos pensamentos
sem razão, sem invenção.
E nos teu olhos olho o óleo fugaz
da nossa paz sem menos nem mais
dos corpos tortos e mortos sem sexo
sem hora marcada depois ou agora.
Romântico e erótico, assim foi feito
o perfeito de viver, escrever e fazer
- com continuar, sem pensar
somente amar e transar
A nossa aids - Capítulo IV, Meus escorpiões
E o Miguel? Está bem também. O
resgate havia sido pago, Carlos não sofreu um arranhão sequer e agora se
recuperava na sua mansão em Miami com a família. Eu havia acabado de doar o
sangue para Geni quando recebi o telefonema. Alleri me dizia que o livro seria
um sucesso estrondoso, estrondoso. Carlos me olhava desconfiado a todo momento,
a única coisa que ouvi ele falar desde a notícia da gravidez foi: O filho é
seu? Não sei. E até agora ele não diz palavra alguma, mas me xinga, me ofende
com aqueles olhares indiscretos. É um desconforto termos que estar no mesmo
lugar, sentados lado a lado e até tentava odiá-lo, mas não tinha força nenhuma
para fazê-lo. Foi assim durante todo o dia: parede verde, som de noticiário e
telefone tocando. Até o médico me chamar: Me desculpe, mas você não poderá doar
sangue. Por que não? Presumo que você ainda não saiba... O quê você está
dizendo? Você está infectado vírus HIV. AIDS?
Eu tenho AIDS?, gritei e essas palavras quase me rasgaram a garganta.
Mas você teve sorte, ainda está no estágio inicial. Aids? Eu tenho aids? AIDS.
Há tempos que eu não sentia uma lágrima correr por mim, dessa vez foram
milhares. O médico falava e falava, mas eu só entendia as palavras AIDS e
doença, morrer, meu coração era um tambor abafado e a única coisa que escutava.
Me trouxeram um copo d’água, não sei de onde surgiu. Bebi; bebi. Me virei e
deixei o médico falando com minhas costas, sentei ao lado de Carlos e
compreendi. Percebi que não havia nada a ser feito, abracei-me a Carlos, o
rosto enxaguado de lágrimas. Ele não relutou nem entendeu, seu olhar agora
tinha desprezo misturado a todos os outros sentimentos. Apertava-o, era o único
por perto, o único que eu tinha para abraçar. Sussurrei para mim: Foram só
duas, apenas duas, duas vezes que eu não usei camisinha, foram somente duas.
Senti que ele me abraçava agora. Não entendi, não entendemos, não
compreendemos, ficamos abraçados até eu dormir. Acordei numa outra cama que não
a minha, nem de hospital, cheirava a Geni, era o apartamento de Geni. Levantei
e caminhei pela casa. Encontrei-o na cozinha. Você está melhor? E Geni? Ela
está melhor, conseguiram o sangue que ela precisava, estancaram o sangramento.
E você? Não posso estar melhor. Alimente-se.
Na mesa havia pães, café, bolo, queijo e suco. Comi o quanto pude. Eu vou sair daqui a uma hora, tenho que
trabalhar. Quer carona? Quero, tenho que passar na editora. Escutamos Legião
Urbana, ele ao menos tinha bom gosto. Como está o andamento do livro? Fique
despreocupado, estamos resolvendo tudo, provavelmente ele será lançado no
início do próximo ano, nós ligaremos. Um sorriso e fui embora, no caminho vi
muitas prostitutas vestidas como damas, era um ódio que me consumia e me fazia
ter náuseas, eu preciso procurar um médico, preciso de um tratamento. Agora
tenho ódio de todas elas. Ei, gatão, que tal hoje? Meu punho levantou acima de
sua cabeça e quase esmurrei aquele rosto tão usado e beijado, não consegui,
corri para o mais longe possível daquilo. Preciso ir ao médico, tenho que fazer
tratamento. Preciso sentar, sento em qualquer lugar. Me perco entre
pensamentos, me sufoco em mim e demoro a me achar entre tantas coisas
imaginárias enquanto o sol me queima a cara. Preciso de casa.
Estava dormindo no chão infecto e imundo
do banheiro quando Carlos veio perturbar a tranqüilidade do apartamento. Seus
olhos brilhavam tanto que chegavam a ofuscar o sorriso. Ela acordou e quer
falar com você. Eu ainda estava atordoado, não entendi aquele sorriso. Geni
falava entre alguns suspiros dolorosos, estávamos apenas eu e ela no quarto.
Olá! Oi! Você se sente bem? Sim. Carlos já falou comigo disse que estão se
dando bem. É, estamos nos dando bem. Vocês são muito parecidos, gostam das
mesmas coisas, pensam da mesma maneira, eu sou prova disso. Aquela fala havia
me ensurdecido, não soube o que dizer. A voz dela ficava cada vez mais
sussurrada: Quais são as novidades do mundo lá de fora que eu perdi? Carlos já
te contou? O quê? Sobre o bebê. Bebê, que bebê? Eu estou grávida? Sorri
cinicamente. Responda!, eu estou grávida? Sim, você está grávida. Os seus olhos
se banharam na própria água e sua voz engrandeceu, tornou-se quase grito.
Desgraçado, desgraçado! Você é o culpado, você é o culpado. Eu não devia ter te
visitado, eu não devia. Saia daqui! Mas, Geni... Saia!, não quero ver seu rosto
por um tempo, saia daqui! Não havia mais lágrimas em mim para serem choradas.
Carlos esperava. E então? Ela está bem. Vou falar com ela. Não, melhor não, ela
quer ficar sozinha. O sorriso estampado no rosto de Carlos era inocente, quase
infantil, talvez não percebesse o que estava acontecendo. Vamos beber! Ele
realmente não fazia ideia do que estava acontecendo. Comprou bebidas numa
mercearia e fomos para seu apartamento. Bebemos, quase todo o tempo em
silêncio, nos embebedamos. Ele me abraçou, sorri, gargalhamos. Seus olhos eram
confusos, ele me puxou e alisou minha cabeça enquanto aproximava o rosto do
meu, parou a alguns centímetros. Tentamos falar. Falar o quê? Eu estava
consciente ainda, ele também, nossos corpos queimavam. Nos aproximávamos, os
lábios encostaram-se – a cena ficou pausada. E agora?, pensávamos. Nos
empurrávamos em direção ao outro, os lábios ainda se tocavam, ele tirou a
camisa, rasgou a minha, fomos para a cama. Ele estava em cima de mim. Mas,
Carlos... minha língua não pôde continuar, havia outra língua em minha boca.
Ele tirava a cueca. Eu pensava em correr dali, correr, fugir daquela cena
surreal. Não sou gay! Não posso fazer isso. E ele me acariciava. Eu estou com aids,
não tenho nada a perder. Ele tinha camisinhas. Nos ajudamos a pôr as camisinhas.
Nos afogamos em nós mesmos, sujamos os lençóis com nossos suores, nossas
salivas. A bebida era só mais uma desculpa qualquer, sabíamos o que fazíamos,
estávamos batizados pelo álcool, isso era o nosso perdão – a própria maldição.
Dormi em cima dele. Acordei sozinho. Não havia ninguém no apartamento, tomei
banho e fui ao hospital. Carlos não estava lá, Geni dormia. Esperei que
acordasse, só pensava nele e tentava esquecer o inesquecível. O que você quer
aqui? Geni, nós precisamos conversar. Não, não precisamos. Mas, Geni, você
precisa entender, esse filho é do Carlos. Não, não é! Ele é seu filho. E agora
toda aquela merda volta! Como você tem certeza? Nos últimos meses só transei
com você e Carlos, mas Carlos fez vasectomia – quando o conheci era ator pornô,
não podia engravidar as atrizes. Então agora eu serei pai? Sim... Ela mergulhou
nas lágrimas e soluços. Carlos está feliz por isso, sempre quis adotar uma
criança, ele acredita em milagres e acha que vai ser pai, acho que ele não se
importa de eu ter engravidado de outro homem. Carlos, Carlos, Carlos! Por que
ele teve que atrapalhar a nossa vida?
- Atrapalhar? Não foi ele quem
atrapalhou, foi você, você quem destruiu tudo. Você quem me largou, me deixou
como se eu fosse lixo. Você era um poetazinho qualquer, um poetazinho de merda
quando te conheci e eu te amava, te amava tanto... Ninguém poderia acreditar em
tanto amor. E mesmo que eu não queira, ainda amo. Eu te amo incontrolavelmente
e impossivelmente. Todas as noites quero e tento te esquecer, pensar que você
nunca existiu, mas é impossível. Por que me trocou por aquelas putas? Por quê?
Eu estava grávida, você não sabia, nem percebeu. Eu estava grávida e não tinha
nenhum emprego. Mas eu sabia fazer sexo e meu curso de teatro ainda valia, você
sempre me achou uma ótima atriz, e acho que sou. Um diretor de filmes eróticos
me viu na rua e lembrou de mim, lembrou das peças que fiz, me convidou para
participar de um filme – era um bom dinheiro, um bom dinheiro. Foi num desses
filmes que conheci Carlos.
- E o bebê?
- Ele morreu, aborto natural. Foi uma
desgraça, seria uma menina, uma bela menina.
Eu tentava responder, tentei balbuciar
qualquer coisa e as palavras soltas uniram-se para formar a frase indesejada:
Eu não te abandonei.
- Não, não abandonou. Mas eu não viveria
com tudo aquilo, aquele cheiro infernal de sexo na nossa cama, sempre cheia de
putas. Você sempre estava bêbado, sempre drogado – tudo por causa da porra
daquele livro.
- Sombras tardias.
- Você e seu novo estilo. Você era um
gênio, o gênio artista da nova década, não era assim que os críticos te chamavam?
E a cada elogio seu ego crescia, você se entupia ainda mais de drogas e álcool,
sempre levando putas para casa. Você me esqueceu, eu não podia continuar.
Aposto que você só se deu conta da minha ausência uma semana depois que parti.
E, sim, isso é abandono, o mais cruel dos abandonos. Eu te odeio, te odeio.
- Preciso falar uma coisa.
Ela agora resmungava para si trechos de
meus poemas e da crítica, ela sempre foi minha maior fã. Você sempre misturando
os diálogos, misturando tudo, confundindo os leitores, surpreendendo os
críticos, criando a nova arte transgênica e trans-zênica.
- Eu preciso te falar uma coisa, Geni.
Sempre precisando falar o que acha, o
que sente, sempre achando que é dono das palavras. Você e os versos sem rimas e
sem métrica, os adjuntos sempre fora de ordem e pós-posicionados, você sempre inovando,
sensualizando a poesia.
- Eu estou com aids!
Ela parou.
Seu olhar rodou pelo quarto antes de
pousar sobre mim. Ela gargalhou como um louco. Você é um brincalhão. E falava
qualquer coisa em polonês, com um jarro rosa de flores na mão, apontando para
minha direção. Enfermeira, tira esse maluco daqui! Enfermeira! A enfermeira
chegou depois de ela jogar o jarro e gritar: Poeta de merda que você é,
desgraçado, não sabe nada, não sabe viver, não sabe compor uma vida certa, não
sabe compor a própria vida! Cadê a poesia, cadê os poemas? Onde está a poesia
nessas horas?
- Eu estou com aids.
Assinar:
Postagens (Atom)