Eu agradeço, me desculpo, peço licença, poucos ouvem, poucos respondem. Ao som da palavra Obrigado há quem forme uma expressão de perplexidade, como se fosse uma palavra de outro idioma, sem tradução. Caminho entre a indiferença de cada pessoa, entre os pensamentos ambulantes e aprisionados no desejo de acontecer. Eu vivo entre a fronteira de ser e fazer. Mas há uma fúria inebriante em mim, causada pelo patético dos ébrios que mal sabem o que são, causada pela ignorância quase disfarçada de cada olhar transeunte. Eu sinto náuseas, e não é somente a fumaça estrada descarregada pelos automóveis, mas também a respiração pesada e sem vida de todos os cidadãos ao meu redor que me causa essa sensação de tontura infinita.
A buzina buzina, me perturba, me enche dum vazio que não entendo. O grito grita dentro de mim como se fosse eu mesmo quem gritasse. Eu tento ignorar tudo isso, mas esse seria o erro fatal. É esse o mesmo erro tão perfunctório dos parasitas mais desnecessários.
E o cheiro cotidiano é a única coisa que posso guardar em mim para depois de todo depois, então eu guardo e continuo.
Escrito a sangue, tangido à luz da noite, embrulhado no brilho das estrelas. [sem vaidade, apenas a realidade, verdadeira e certeira. com todo amor, todo horror] {aconselhado apenas para humanos e quase humanos}. CUIDADO, MUITOS SE PERDEM NO TORTUOSO CAMINHO!
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
Nós e os lençóis
Neste momento, nesses movimentos,
nos unimos, nos consumimos.
Sinto o gosto da tua voz
em minha voz,
sinto tua maciez em minha
frieza dura.
Rolamos, nos engolimos,
nos destruímos,
construímos um ser de dois
sobre essa cama,
cercada por chamas.
Tuas mão me prendem,
quase me sufocam
num alívio úmido
de sentir o amor abstrato
concretizado num prazer,
desejando e apaixonando,
formando uma cerca.
Nossas palavras diluem-se,
misturam-se, infectam poemas.
E o teu peso sobre mim
me levanta, me acorda,
me torna a volver
teus olhos encharcados
de suor meu,
perdido num lugar distante,
em que num instante
pude sentir algo a me ferir.
Enquanto caio nos teus braços
sinto-me voando, flutuando,
boio neste nosso mar de vocábulos,
desesperados, inventados, desejados.
Formo-me em poucos muitos
para preencher-te,
para que te siga
entre nós, entre atos e ações
nessa dança, fundindo corações
sábado, 15 de setembro de 2012
As palavras escorreram pelo rio mais límpido,
se foram pelo caminho mais tortuoso e me deixaram sozinho, desolado.
Minha pele ainda está marcada pelas palavras dolorosas que nunca se controlaram.
Eu estou debruçado sobre mim mesmo,
minhas lágrimas congelaram e me cegaram,
eu estou fora de mim,
sou ainda menos eu mesmo.
Sou outro que nunca fui e sempre fugi,
sou outro que nunca precisei de mim
se foram pelo caminho mais tortuoso e me deixaram sozinho, desolado.
Minha pele ainda está marcada pelas palavras dolorosas que nunca se controlaram.
Eu estou debruçado sobre mim mesmo,
minhas lágrimas congelaram e me cegaram,
eu estou fora de mim,
sou ainda menos eu mesmo.
Sou outro que nunca fui e sempre fugi,
sou outro que nunca precisei de mim
Não há mais porquê,
não há mais sobre o que escrever.
O amor se foi, partiu de mim,
o amor que talvez nunca existiu agora é certeza dum vazio,
um vazio obscuro com toda escuridão de meu coração.
Meu amor se foi de mim,
tudo se foi e caiu, como uma construção malfeita, sobre mim.
Tudo foi demolido numa explosão só, sem expressão, sem precisão
não há mais sobre o que escrever.
O amor se foi, partiu de mim,
o amor que talvez nunca existiu agora é certeza dum vazio,
um vazio obscuro com toda escuridão de meu coração.
Meu amor se foi de mim,
tudo se foi e caiu, como uma construção malfeita, sobre mim.
Tudo foi demolido numa explosão só, sem expressão, sem precisão
Algo vago
Algo que não entendo,
sempre o mesmo algo,
a mesma coisa sempre.
Eu ainda insisto em entendê-la só pelo prazer de sofrer,
ainda insisto em tentar saber só pelo prazer de não morrer.
Eu ainda tento as mesmas coisas diariamente,
e busco respostas, causas inconsequentes.
Eu busco uma nova busca,
para me machucar, me ferir, me arranhar
com todo tipo de coisa,
todo tipo de ferimento como lembrança de cada tormento,
semântica de cada pensamento irracional e reacional.
A reação das substâncias infectas,
a reação dos fatos inexatos relatados pelos olhos fatigados,
cansados de tanto horror, pesados com tanta sujeira
que carrego e carregarei pela vida inteira.
Por fim, enfim, no fim de tudo vem um fim sem fim,
algo que em mim faz todo sentido
mas não resume ou explica qualquer coisa.
Algo que só atrapalha, só confunde e retarda todas as ideias pretensiosas
(cheias da ânsia de acontecer, mas que nunca existiram)
sempre o mesmo algo,
a mesma coisa sempre.
Eu ainda insisto em entendê-la só pelo prazer de sofrer,
ainda insisto em tentar saber só pelo prazer de não morrer.
Eu ainda tento as mesmas coisas diariamente,
e busco respostas, causas inconsequentes.
Eu busco uma nova busca,
para me machucar, me ferir, me arranhar
com todo tipo de coisa,
todo tipo de ferimento como lembrança de cada tormento,
semântica de cada pensamento irracional e reacional.
A reação das substâncias infectas,
a reação dos fatos inexatos relatados pelos olhos fatigados,
cansados de tanto horror, pesados com tanta sujeira
que carrego e carregarei pela vida inteira.
Por fim, enfim, no fim de tudo vem um fim sem fim,
algo que em mim faz todo sentido
mas não resume ou explica qualquer coisa.
Algo que só atrapalha, só confunde e retarda todas as ideias pretensiosas
(cheias da ânsia de acontecer, mas que nunca existiram)
O sol e seu amor incondicional
É tremendo o desejo de sair, fugir, correr. O barulho das engrenagens misturado à música malfeita e entrecortada é um absurdo contraste quando se escuta as vozes desalinhadas, neuróticas, paranoicas. O motorista que desrespeita tudo, parece nem saber que existe algo mais além dele, parece não perceber a responsabilidade.
O cheiro me lembra coisa morta, podre, infectada com a mais pura sujeira. Tudo é infernal, a carne quente que roça na carne fétida, a mosca que pousa e brinca entre cabeças sem cabelos, cabelos despenteados. Mesmo a paisagem é repulsiva, os óculos e as janelas, manchadas de terra, de dia, de vida, tentam disfarçar o quadro naturalista e barroco que se estende para o mar e quase toca o sol. Preciso me espremer, empurrar, declarar licenças desatentas e desnecessárias. Quero não observar, mas não controlo meus olhos e vejo os meus pesadelos, minhas insônias, materializarem-se nas ruas. Salto o mais rápido possível, tento fugir de mim mesmo. Corro o máximo que minhas pernas já deixaram para depois saltar de novo e voltar a outro ambiente idêntico, infecto, sem lei, sem paz, nocivo à toda saúde. Volto a procurar um refúgio do sol, do cheiro de vômito e suor que impesta a cabeça de cada um. Tento esconder a mochila entre as pernas. Tento passar, com licença, por favor, com licença, desculpa. Ninguém ouve, só reclamam, reclamam da avidez imperceptível e incurável duma minoria deslocada.
Preciso correr, sentar, pensar, preciso parar. É alucinante, corro, busco mais um para me levar a lugar algum, o lugar em que me encontro todos os dias. E o sol me acompanha, me enlouquece, me chama e entre suas chamas me marca a pele num sinal de amizade. E as nuvens, com todo ciúme, tentam encobrir-me, mas ele continua a me seguir, continuar a me amar, como ama a todos.E continuo na viagem entre máquinas, desvio de carros, me perco no asfalto, passeio e me diverto com flerte arbóreos, o peso da mochila não me deixa voar, meu pensamento dança e se diverte com o vento insensato que me beija e me abraça com toda a paixão, a única paixão em que realmente confio e acredito.
Eu sigo, sempre com o desejo de saltar em outro ônibus e participar das danças ritualísticas obrigatórias a uma parcela, desbravadora, corajosa e forte, da sociedade a quem costumam chamar de passageiros (passageiros públicos, transeuntes, diluídos em adjetivos irreconhecíveis mas necessários).
Não é busologia, é esporte
Pegar ônibus é um esporte, uma arte.
Digno-me a dizer que pratico tal esporte desde que me conheço como humano. Pulo, salto, corro, busco as letras, os números que identificam o destino quase inalcançável. É a maratona da vida diária. A maratona praticada inconscientemente ou mesmo indesejavelmente por milhares de fortalezenses. E não é algo que se aprende rapidamente, é preciso talento.
É preciso talento para correr, raciocinar em segundos, saber o que vai fazer, se esgueirar, driblar as barreiras invisíveis, tentar ultrapassar o túnel quase intransitável de pessoas. As pessoas: essa é a melhor parte. Pessoas fortes, vivas, coladas, suadas, gente que sabe para onde vai, gente que nem sabe onde está, gente que xinga ou agradece, que respeita, desrespeita e empurra, simplesmente gente - que, apesar de tudo, formam um corpo só naquela dança matinal quase obrigatória na esperança de repetir-se no fim do dia.
Não há esporte mais belo que pegar ônibus. Não há nada mais agraciador que conquistar a cadeira entre tantos outros que a almejam, isso depois de ter corrido, tropeçado, saltado e, enfim, pegado o ônibus.
É preciso artimanha, perspicácia.
E o motorista, o piloto, o quase aviador, o responsável pelas vidas, todas as vidas, todos os caminhos, todos os destinos, o responsável por tantas histórias, impensáveis e irrealizáveis se não fossem os caminhos tortuosos e desconhecidos, decididos pelo motorista.
Não sou otimista, não sou um sonhador, sou um vivedor. Não invento nada, nem sei como inventar, é tudo fruto do tempo, todo o tempo que dediquei a praticar tal atividade (artística e esportiva).
E sim, o ônibus é belo, aquela máquina gigantesca, com os milhões de parafusos que gemem, tremem na sinfonia do motor - o maestro primordial da música que não esqueço e quase me ensurdece no prazer das voltas, das curvas e dos freios bruscos, antes ou depois do choque mortal. Sim, é tudo por causa do destino, é isso que explica as voltas em torno do mesmo eixo, o vai e vem incansável; tudo só para chegar ao destino sem razão e sem precisão.
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