domingo, 29 de abril de 2018

Ressurjo das cinzas

Depois de tantos silêncios,
eis que está instalada a fábrica.
Em novo endereço:

https://fabricarsilencio.wordpress.com/

(estive isolado, e fui barrado
muitas vezes
sempre que tentava voltar:
um obstáculo.
precisei fazer
e escrever
muita coisa
antes de voltar para onde comecei)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

We used to say to each other the words just we know
But today we don't recognize that words
And my heart
It doesn't feel you here no more.

There was a child - almost you,
A little child,
And then she...
I see she was who you ever loved
Who you never knew
And then we died there
That night.

It's sad, too sad.
It's as sad as the love that she never felt,
the love that died in her hands,
her little lovely hands

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Não me canso da paixão

Não me canso de, frequentemente, te olhar,
não me canso de, perdidamente, te amar
e ficar aqui, sentado, calado,
te observando, te desejando,
me apaixonando.
Não me canso de ti,
não me canso de nós.
Teus olhos e tua pele que ardem,
teus lábios e teus cabelos brilhosos.
Nosso amor em corpos nossos,
nossa canção em poemas amorosas

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A poluição poética - Capítulo VI, Meus escorpiões

          Tudo trevas, eu acordo, havia desmaiado de tamanha exaustão psicológica, o revólver falhara. Mesmo depois de abrir os olhos eu permaneço deitado naquele chão imundo do banheiro, rodeado pelos fluidos mais fétidos e repugnantes, partes de mim. Passam-se duas horas e meu olhar continua fixo no teto horrível e macabro. Ouço uma voz gritando frases de raiva, de ódio, de palavras inteligíveis. A voz intensificava-se cada vez mais, mais grave, mais próxima, mais - já não é a minha consciência, é algo fora de mim-, é a voz de Carlos. Carlos grita, me chama. Devo abrir a porta para ele, meu corpo continua grudado àquele ambiente insólito. Entendo três palavras apenas, Geni recebeu alta. É o  bastante para me desagarrar daquele estado. A porta, à porta Carlos está eufórico, seu sorriso, seus olhos, todo seu corpo brilha, ele repete: Geni recebeu alta. E antes que perceba, ele já está na cozinha, bebendo água, parece se acalmar. Que alívio, agora finalmente eu e Geni poderemos fazer a merda daquela viagem em paz, Geni não corre mais perigo e o bebê está ótimo. Então, impensadamente, ele me abraça e me beija a bochecha. O ato me traz sentimentos indesejados de ódio, de amargor, penso na Geni que ele me roubou, sinto uma fúria ardente, uma fúria crescente, penso no respeito que ele me tirou, na vida que ele me destruiu. Quase sem querer, como que para me sustentar em mim mesmo, minha mão pousa sobre a mesa, coincidentemente, sobre uma faca e a faca, involuntariamente, se levanta, se ergue, tudo pausa num quadro fotografado, perfeito. Carlos fala: E é amor que há, é..., a última palavra é sugada pelo corte penetrante, furioso. A faca despenca num arco perfeito até perfurar as costas dele, a faca o rasga, sinto ela encostar na coluna dele, eu empurro ainda mais a faca, puxo a faca, a faca dança dentro do corpo de Carlos, o sangue samba, respinga em todas as direções, eu sinto o calor de Carlos em meus braços, sinto o calor do sangue em minhas mãos, sinto o sangue a lavá-las, meu suor se confunde com o sangue, sangue que brinca no chão, rasteja sobre a faca. Ele continua abraçado a mim, formamos agora um monumento de mármore, a palavra solta ainda está pendurada na boca do defunto, quase vivo, quase morto, o espasmo tardio. E solto o corpo de mim, o corpo cai, banha-se na própria vida que é agora morte, vinho. Não penso em absolutamente nada por um curto intervalo de tempo, não penso, não existo, até o som amedrontante de aço sanguinário ecoar pela casa e me fazer perceber toda a merda. O corpo de Carlos, o sorriso mal-formado, os braços formam um abraço invisível, as pernas curvam-se, quase ajoelhadas no ar, os olhos estão fixos no teto, o mesmo teto. Cedo à queda e, encolhido em mim mesmo, observo, agora, além de suor e sangue, há as lágrimas. Não sei o que fazer, não sei como fazer. Eu o matei, matei o amor de meu amor, matei meu último amor. Eu realmente o amava, como nunca amei a nenhum homem, e por isso o odiava. Eu não deveria amá-lo tanto assim. E agora ele não existe, preciso fugir, fugir de mim mesmo. O que fazer com a porra do corpo? O que fazer comigo? O que fazer com tudo? O que fazer? Eu grito, esmurro chão, parede. Me esmurro, me sussurro palavras impenetráveis, palavras irreconhecíveis. Sou um assassino, eu o matei, caralho! Porra! Eu o matei, porra! Fujo, fujo. Fujo do corpo, do sangue, do cheiro, do teto. Tento fugir de mim, fugir do assassino. Corro, corro o quanto posso. Corro. Carro. Carros. Ainda estou banhado em sangue - batizado pela morte -, as mãos pintadas de vermelho, com o cheiro invariável de carne. Na rua as pessoas se assustam, se amedrontam, correm para longe de mim, algumas gritam, choram, desmaiam, alguns homens me perseguem. Corro, corro. É a polícia atrás de mim, droga, eu tenho que correr, tenho que correr. Mas havia uma pedra no meio do caminho, havia eu no meio do caminho. Tropeço no ar como se ouvisse música, tropeço em mim e caio, caio ao chão. Caio. Rolo. Eles me agarram, os policiais me agarram, me algemam, não resisto, não penso. Eu matei uma pessoa. Eu matei Carlos.

Os reinos da poesia

Era um rei que reinava aquele distante reino,
que vivia por entre as mais altas e infinitas montanhas.
Era o rei que tinha em si o tudo de ser,
o rei que era, ele mesmo, a própria lei.

Não foi da rainha que nasceu a princesa,
não foi naquela manhã aclamada e adorada.
Foi antes, foi entre as árvores.
A princesa nasceu duma semente, a princesa estava dentro dum bacuri.
E foi o rei, em suas manhãs de passeio pela floresta, que ouviu o choro abafado,
o choro desencontrado de uma nova era,
era o choro da princesa.
O olhar do rei brilhou, como estrela nova,
o semblante do rei se fez quase sol,
o sorriso do rei foi dos maiores sorrisos, dos mais belos sorrisos.
Estavam todos lá, à frente do castelo, a aguardar o esperado retorno do rei com a nova esperança,
a nova criança.
E já podia se ouvir o choro animador, o choro de amor,
o choro mais bonito de todos choros, o choro-canção, a música mais encantadora.
Não havia, em todo reino, quem não escutasse as lágrimas,
não havia chuva que fosse mais perfeita,
não havia olhos mais fascinantes que aqueles olhos castanhos da princesa.
Como milagre, a rainha tinha em seus fartos seios o leite, o mais puro leite,
o leite que a princesa tanto bebia e se satisfazia.
Foram anos, dois anos, a princesa já corria pelo palácio,
a derrubar coisas, a fugir de outras.
Foram anos, quatro anos, a princesa já falava
e quase cantava, admirava a todos.
Foram anos, quinze anos, a princesa era moça,
moça bela e incrível,
moça talentosa,
não havia quem não se encantasse quando ela tocava harpa, era a mais hábil de todo o reino,
sua voz mais parecia o canto da natureza, o som de toda sua beleza,
e ela pintava, desenhava, parecia, ela mesma, fazer um novo mundo nas telas,
construir um novo tudo em quadros coloridos.
Mas nada era mais triste que quando ela estava triste,
o céu enegrecia com o negro mais negro e dolorido,
as flores murchavam, se dobravam diante as mais ínfimas coisas,
os mares se revoltavam, as ondas se levantavam além das nuvens, engoliam quem se atrevesse a
                                                                                                           [enfrentá-las.
Mas quando estava alegre, o sol nascia com a alegria no mais lindo dia,
as nuvens dançavam alegremente
e o vento cantava junto a ela, cantava as mais impressionantes canções,
admirava aos mais diferentes corações.

E havia o príncipe, o príncipe do além-mar, o príncipe daquele outro reino,
o reino mais obscuro e maléfico, lá era a morada eterna da outra metade da lua
 - feito o símbolo-metade que há na palma da mão da princesa -,
nem as estrelas queriam ser vistas por lá,
as nuvens fugiam,
as árvores se aglomeravam para formar bandos, bandos que sugavam a vida daqueles que
                                                                                                                    [se aproximavam.
E foi ao príncipe do obscuro que foi prometida a princesa do reino entre infinitas montanhas.
O príncipe era, decerto, o mais belo ser na face de todos os bosques existentes,
não havia em todo mar, todo céu e toda montanha quem não se hipnotizasse com tanta beleza,
era de uma superioridade superior a qualquer outra coisa que não fosse ele,
todos os bichos se curvavam ao ouvir seus passos.
E a ele a princesa fora prometida, ela sonhava com os momentos mais poéticos,
sonhava com as fadas que fariam o mais esplêndido vestido a ela,
sonhava com os belos olhos verdes do príncipe, os olhos tão comentados e desejados.

Ela aguardava sentada no salão gigantesco
quando se ouviu o grito quase ensurdecedor do dragão mais feroz,
era o príncipe, certamente.
E era apenas ele que ela tinha em mente.
Ela correu pelo corredor estreito e viu aquele homem estupendo.
Ele brandia a espada num pedido para que os ventos parassem de cantar,
ele não suportava toda aquela pureza, toda aquela beleza do reino.
Quando os olhares se encontrarem havia uma luz própria que brotava dos olhos de cada um,
havia um amor misturado à confusão, uma dúvida misturada a mistério.
Uma lágrima questionável e inesperada desceu pelo rosto da princesa e lhe correu o corpo,
ao tocar o solo, formou-se um ponto enegrecido.
Outra lágrima já lhe corria o rosto quando o príncipe a abraçou e apertou o corpo dela em seu corpo,
ele capturou a lágrima com a mão e um sorriso brotou do seu rosto, um sorriso sem fim e sem começo.

Nem era meio-dia e ele a levou para longe dos pais, para outro reino.
O rei não chorou, mas seu rosto se fez em ódio, nem parecia ser o mesmo rei,
a rainha sorria pelos cantos, quase aceitava tudo aquilo.
Era a guerra, todos morriam ou a princesa se casava com o tal príncipe.
E naquele reino a morte era temida, era o temor maior de todos.
Então era necessário, para viver, entregá-la ao príncipe das trevas.
Mal sabiam como estava ela naquele instante no reino mais que distante,
mas choravam sua partida como se fosse morte, afinal, ela não voltaria, ninguém mais a veria.

Dois dias, dois dias e a princesa já não tinha o mesmo sorriso no rosto,
a pele já não tinha o mesmo brilho encantador,
os olhos já não fascinavam, não encantavam.
O príncipe só a via de noite, de dia havia muito trabalho,
não era fácil tomar conta de toda dor entre as montanhas,
fazer sofrer todos aqueles que naquele reino viviam, cansava.
E por isso, força ele quase não tinha para amá-la,
seus beijos eram fracos, seus abraços mais pareciam obrigação, nada vinha de seu coração.

Enquanto que lá do outro lado das montanhas, o sol não queria mais aparecer,
as nuvens não dançavam mais,
as estrelas quase não brilhavam
e o vento não cantava,
o que fazia das flores a tristeza,
as deixava desoladas, sem vida, sem alegria. (era preciso a princesa de volta)

Foi numa noite negra qualquer que a princesa percebeu:
o príncipe lhe roubava as lágrimas da noite,
as lágrimas lhe eram o prazer,
lhe eram o porquê de viver.
As lágrimas o fortaleciam, lhe obscureciam ainda mais o coração,
dele faziam o ser mais assustador e amedrontador.
A princesa, então, passou a engolir o choro e tentava sorrir,
tentava se alegrar, tentava amar.
E lembrava-se do pai, lembrava-se de seu reino,
das nuvens, do reino, das flores, do sol, das estrelas e de tudo que lhe era a alegria maior.
Foi então que o reino obscuro esclareceu, as rosas murchas e negras renasceram,
se abriram, espalharam as mais diversas cores por todos os cantos,
a lua se fazia quase completa na outra metade
e quase podia-se ver o brilhar do sol por entre os vales aterradores,
as dores eram extintas pelo canto real e sublime da princesa.
O príncipe tinha ainda menos força, desesperado, enlouquecido e fraco.

"Vou te roubar o coração, te necessito a vida para me viver,
para fazer de tudo o horror, a maior e mais dolorida dor".
Os olhos se encontravam num duelo,
não havia paixão, havia ódio e medo.
A espada horripilante do príncipe tocava o peito da princesa e fazia sangrar, fazia deixa de amar,
o sangue corria pelo chão, formava um desenho indecifrável no chão,
fazia se formar um partido coração entre ambos.
E a espada penetrava cada vez mais na carne,
entrava e furava a pele, furava a alma, furava o amor, criava uma redoma de dor e ardor.
E a ponta afiada e mortal já quase encostava o coração da princesa
quando a mais triste das lágrimas saltou do seu olho esquerdo
e sem menos nem mais,
e a espada do reino entre montanhas cortou o coração do príncipe do medo,
sua espada cedeu e perdeu todo contato com a princesa,
caiu e saltitou, dançou, no chão, entre o sangue.
Ele já ia dando o último suspiro
e levantou-se para beijar a princesa,
quando seus lábios grudaram-se ela percebeu quem ele era,
ela percebeu por que tanto o amava
e viu na palma da mão do príncipe a outra metade que lhe completava a metade em sua mão,
era ele a outra parte que ela tanto sentira falta,
era ele seu irmão,
era ele o que sempre lhe faltava no coração,
era ele o necessário da felicidade
que agora era somente vaidade.
Diante de cena tal o rei mal sabia.
"Mate-me, pai".
E o olhar do rei estarreceu, estacionou, estarrificou.
"Mate-me, pai!".
O rei não pensava, não sabia, o rei nem suscitou, parado ficou.
"Ele era a minha eterna metade. Agora já não vivo se não junto a ele.
Parta-me igualmente o coração, meu pai".
E antes que ele percebesse,
ela lhe puxou a espada
e continuou o caminho que antes ela fazia nas mãos do príncipe.
O sangue jorrava, formava um rio, completava o desenho e envolvia os corpos.
Levou tempo até o rei acordar do transe.
Seu grito cortou o próprio vento,
estremeceu tudo no caminho das trevas ao reino, fez as montanhas moverem-se.
E ele caminhou sem onde, sem caminho, sem destino, caminhou.
E ele foi à outra parte que não tinha parte,
foi no caminho, imperturbável. O caminho inseparável e imparável.
O reino das trevas desmoronava, desfazia-se sob seu príncipe eterno.

O rei voltou, o rei já não sorria, mas percebia que agora havia mais duas estrelas no céu,
o sol ainda mais alegre nascia, a lua estava completa, cheia.
E, estupefato, viu o sol e a lua encontrarem-se como dois amantes,
viu as flores cantarem ao vento,
ouviu as mais belas canções.
E os mares revoltos já se acalmavam e eram paz,
eram o que sempre foi o mais,
eram o amor demais.
E em cada coisa
estava a princesa completa,
em cada parte
havia o sorriso mais belo que já se vira,
havia a arte
- agora eterna

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Inominável

Não precisam de nomes as palavras expressivas.
Esses nomes todos são para confundir
a verdadeira verdade.
É no silêncio que se diz tudo o que há
para ser dito,
no escuro é onde lemos o necessário,
o correto.
As verdadeiras palavras
não se chamam palavras,
se chamam sentimentos

Vida, vida

  Da folha em branco eu nasci,
  em teu sangue cresci,
  no teu coração vivi,
  na tua mente sorri,
  e gritei, chorei, agonizei
  até te fazer despertar
e então morri

Sentido inverso

Os teus poemas é que leio,
os romances são fingimentos.
Tua beleza é que enxergo,
os óculos são coincidência.
Do teu amor é que escrevo,
palavras são inevitáveis.
É de ti que preciso para viver,
o oxigênio é só desculpa

Ele, apaixonado

Eu já fui o rei dos mares,
o caçador dos leões,
o dono da terra.
Mas nunca nada me fez ser tão eu
como sou quando penso em ti.
Nada foi como é com tua existência,
nada era antes de ti,
ou melhor,
só o nada podia ser além de mim
sem ser contigo
Teus poemas de tão amorosos
me fazem poesia,
nos fazem amantes.
Enquanto eu tento reconstruir
em minhas palavras
o teu mesmo amor
- poético -,
mas só não sei falar
o que não foi dito
e irromper na margem do amor
para repetir os teus mesmo poemas
por não me ter nas palavras,
eu grito para escutarem
o quanto eu consigo te amar
e só minhas palavras inúteis ouvem

O começo de mim

Rodopio no ventilador,
nado na escova sob o chuveiro,
danço com o liquidificador,
guardo o máximo de dinheiro.
Bebo água,
como mágoa,
quebro o espelho,
visto calças,
rasgo a cueca.
Amasso papéis,
enceno outros,
mato-os - os mesmos personagens
que me construíam.
Nasço e saio para passear com o sol

Nossas palavras

Eu te amo tanto
e com tal força
que não consigo exprimir em letras
o amor
- tão usual e repetido noutras bocas apaixonadas,
que chegou a se apagar.

Esse amor que nunca brilhou,
que desaparecia quando apagávamos a luz do quarto.

Eu te amo tanto
que escrevo estes versos
(ridículos e patéticos)
para um dia
serem apagados
pela mesma mão que os escreveu

Vida astral

Nessa dança erótica em que vivemos,
nos comemos,
formamos uma cena esquecida
passada e repassada em uma jaula.
Damo-nos ao máximo e nada recebemos,
forçamos a vista até que enxergamos
um vazio dentro de cada um,
preenchido de nada,
de uma vida retesada.
E se um dia sairmos da caverna
não voltaremos,
mas ficaremos com uma falta fraterna,
encerrando a cena,
serrando as grades
de onde já fora Atenas

Primeiros anos

Espera, que eles já vêm à mesa de jantar,
comer, se alimentar do que aqui há.
Eles estão sedentos, precisa de carne,
carne crua, fresca, fraca.
Já dá para sentir o cheiro de suor sujo
aproximando-se,
já se pode ouvir o uivo, cujo
o som vem alternando-se.
As gargalhadas imorais
estão impregnadas nos pelos
e se afundam mais e mais
entre seus dedos.
Calma, querida, eles só querem saciar-se,
só querem tua carne provar
e te mostrar, te ensinar
o que é aliviar-se.
Eles querem teus olhos fechados,
tuas pernas abertas,
teus braços suados,
eles te querem escancarada,
querem se divertir na madrugada.
Então deixa, deixa,
que o mundo tem desses prazeres,
todos esses deveres
de se vender para ter o que comer.
Os primeiros anos são os piores,
depois torna-se costume
essa violência que te consume,
a permissão que te devore.
Agora relaxa, para de chorar,
deixa doer, deixa sangrar

Doente viral

É melhor você me esquecer,
é melhor você se afastar.
Eu estou contaminado,
posso te matar,
não quero te contaminar.
É melhor você ir,
meu amor pode te adoecer.
Eu adoeci de outros amores,
agora estou morrendo,
o sexo me matou

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Flores bissexuais - Capítulo V, Meus escorpiões

          Eu estou com aids. Terceiro dia que acordo com essa frase a me torturar, cuspindo na minha cara todos os prazeres que tive. Meus sonhos eram perturbadores, Geni segurava uma criança ensanguentada - Toma, pega, o filho é teu -, Carlos me matava com seu pênis gigante. Eu, sempre acordando atormentado, os olhos ressecados por causa das lágrimas secas. Eu sempre tentava esquecer tudo, mas os pensamentos estavam impregnados em mim, eu não me via mais no espelho, só conseguia ver esses pensamentos. Sempre assim; quebrei todos os espelhos do apartamento, já não fazia a barba. Eu não saía mais de casa. Ninguém ligava, seria melhor assim, todos me esqueceriam, seria melhor assim. Pela terceira vez estou no banheiro, a faca ainda suja de margarina toca meu peito e acompanha a respiração. Duas horas na mesma posição, apesar do suor, a mão continua firme na mesma posição, a faca segura entre os dedos. A mente vazia me esvazia, me dá azia. Olhos famintos por cores. Batidas, batidas se confundem com o som de meu coração. Há alguém na porta, há alguém me chamando. A faca desliza, me alisa o peito, arranha o peito, o sangue forma uma imagem estranha no chão, como um pequeno sol vermelho. Sinto os olhos nas lágrimas, afogam-se, mas só o suor corre pelo meu rosto. As batidas frenéticas continuam, quase formam um ritmo, e eu preciso atender. Amanhã tento a morte novamente. Não visto calças, somente blusa e cueca. É o Carlos. Ele demora a abrir a boca, seus olhos estão tão conturbados quanto os meus. Eu já soube da doença. É, estou com aids. Sim, vim te buscar para te levar ao médico, agendei uma consulta. Tão rápido, você transou com ele também? A resposta é silenciosa, mais silenciosa que o silêncio, é fria e dolorosa, agressiva. Vista as calças. Já vestido estou esperando no hospital, durante a viagem não houve conversa e ainda não há. Nem olhares nem nada. Mas brigávamos, nos insultávamos por pense pensamento, nos xingávamos com silêncio. Teu pulmão não está muito bem, meu rapaz. Quando sai o resultado, doutor? Quinta-feira. Caso o resultado dê positivo, teremos de começar um tratamento imediatamente, e não te preocupes, não será assim tão doloroso. Sorrisos amarelos. Carlos me dá um tapa nas costas, amigável. Você fazia filmes pornôs? A Geni contou, não foi? Sim, eu fazia, era a única forma de viver, por incrível que pareça, eu me formei em Jornalismo, mas você sabe como é a vida, eu não tinha dinheiro para um aluguel, mas meu primo era produtor desse tipo de filmes, o salário não era nada mau, eram três mil e quinhentos por filme. E em algum desses filmes você teve que transar com Geni? Não, sempre era outro ator. Mas quando a vi no camarim... Ela é uma mulher inteligente, bonita e foi a primeira mulher a me beijar de verdade, me beijar com amor, nenhuma das outras mulheres que conheci queria amor. Ele então olhou para mim e, contra nossas vontades, nossos olhares se encontraram e o silêncio voltou a nos atormentar.
          Geni se recuperava muito bem, eu ainda não havia visto como ela estava desde o jarro de flores. A enfermeira disse que ela estava dormindo, nem saberia que eu estava ali. Geni estava cada vez mais linda, seus cabelos despenteados eram ainda mais charmosos, seus lábios sensuais quase imitavam todas as curvas de seu corpo. a barriga não crescera ainda e ela ainda era linda, mais linda do que nunca. Estava tentado a beijar aqueles doces lábios, antes que eu desse um passo, suas pálpebras se levantaram, seus olhos encheram a sala de brilho. Vocês está aqui? Isso não é mais a porra de um pesadelo? Não, querida, eu estou aqui. Querida? Você me engravidou, um bebê, aids, estamos todos com aids, infectados, por causa de você, seu desgraçado! O quê? O quê você esperava, idiota? Mas... Mas o quê? Então foi você quem me adoeceu, Geni. Ela não respondeu, os bipes ecoavam pelo quarto. Sim, eu acho que sim, há tempos sinto pequenas bolinhas soba pele e não me sinto bem, me sinto fraca, eu sempre estava meio resfriada, com algumas dores de cabeça. Sim, querido, eu quem te passei a doença. Eu chorei, chorei com minhas últimas lágrimas, chorei e chorei. Está chorando de quê, quer que eu me desculpe? Eu não sabia o que dizer, não sabia o que falar, não sabia o que fazer, não sabia o que pensar. Não havia palavra a ser dita, abracei-a, ela não protestou. Abracei somente, com um afeto triste, até adormecermos na mesma doença repugnante e nojenta, a doença que tanto atormenta.
          O senhor não pode ficar aqui. Era a enfermeira loira, a mesma que me atraia, agora era só mais um pedaço de carne podre, infectado pelo mundo, sujo. Ela abriu a janela para o sol voltar a nos perturbar, saí e fui para casa. A máquina de escrever estava escancarada, sentei-me, mas as palavras fugiam e tudo a ser dito tornava-se menos um pensamento vago despedaçado e jogado à lixeira. Parem, parem de gritar, estou cansado de tudo isso, me matem, estou aqui, mas parem de atrapalhar! Atrapalhar o quê? A infância desmentida, a adolescência imunda e rabiscada, destroçada e desgraçada, a velhice precoce e imoral, atrapalhar o quê? Vida de merda! Infância, infância, infância. A adolescência sem vida é a pior de todas as lembranças. Se é para morrer quer seja rápido, que chame a atenção, que faça barulho, que mude algo ao menos. Preciso de um revólver. Preciso me embebedar e transar.
          Estou no sexto copo. Seu João, você conhece alguém que vende armas? Falo entre pausas e soluços. Deixa disso, rapaz. O senhor sabe, a cidade está ficando perigosa, cada vez mais violenta, aposto como você tem sua pistola para imprevistos e emergências. Seu olhar me consome. Tem uma casinha amarela, número 41, daqui a cinco ruas. Diga que conhece o Kléber, eu só não aconselho que vá nessas condições. Ponho uma nota de vinte no balcão e dou as costas com um até mais embriagado. As ruas estão vazias, eu não estou tão inconsciente, ainda consigo pensar e caminhar, número 41, casa amarela. Boa noite, senhora. Eu preciso de um revólver de pequeno porte. Desculpe, mas não vendemos armas, o senhor deve ter se confundido. O Kléber que me encomendou essa arma. Suas pálpebras pesam. Entre então. Sei que o Kléber não te conhece, se ele quisesse algo, viria ele mesmo. Sorrio um sorriso puro de álcool, me erro. Então, o que você quer? O revólver mais barato e balas. Pago duzentos reais e volto para casa, sem cambalear, talvez a aids iniba o efeito do álcool.
          Agora é só puxar o gatilho, o cano já está enfiado em minha boca, posso senti-lo em minha garganta, ele arranha tudo que penso, agora é só puxar o gatilho e deixar a bala fazer todo o resto, o trabalho será mínimo. Ninguém sentirá falta de mim, ninguém, absolutamente ninguém. É fácil, basta puxar o a porra do gatilho. Basta puxar! Tudo estará feito, é isso então. Todas aquelas garotas, os beijos, as loiras, as morenas, os seios, as nádegas, os livros, os poemas, o bebê, Geni. Meu filho seria órfão de pai. Não, seu pai é e será Carlos. Basta puxar. Puxe! PUXE! Vamos lá. Vamos lá! Só você vai, tudo fica, tudo ficará para trás. Porra! Puxa a merda do gatilho. Merda! Ah! A vida tão cantada não tem nada mais que a morte, viver não é mais belo que morrer. O gatilho, droga. Puxa!
          Então, puxo o gatilho. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O fundo do poço

O fundo tão tanto quanto profundo em que perfeitamente me encaixo
é meu refúgio úmido e imundo, meu perfeito lugar,
meu lugar de não ser, não viver, não amar, não pensar.
Minha própria mão me aperta, me envolve, me arranha o coração,
meu coração me sufoca e me faz não parecer, me faz não fazer.
Eu tento em outro intento,
quero não repetir, não cair, não fingir, quero não querer.
Mas ainda assim continuo, influo e me fluo num fluxo indiferente,
um fluxo perturbado quer sempre me conturba os pensamentos,
que sempre me cria os pensamentos
e me faz sofrer na precariedade de escrever, na inutilidade de saber.
Permaneço na velha tentativa de reconhecer a antiga imagem enferrujada e inacabada,
a velha imagem (tentativa) de me ser através do vidro,
através do espelho repugnante que sempre me formou no futuro do antes,
da água poluída e indistinta, a água de meus fluidos a me afogar, a me perturbar,
a me forçar, a me pecar e me tentar.
Mas a música me ensurdece, o som me enfraquece,
o poema não me escreve, o dia não me nasce,
permito que cada palavra me rasgue e me lasque
como se a grama em que me deito fosse lascas a me perfurar, me amaldiçoar,
como se cada minha grama me fosse o peso mais pesado e mais torturante,
como se tudo nada me fosse,
como se a comida já nem fosse necessária, como uma piada hilária
na perdição de encontrar algo da maior utilidade na vida solitária,
como se cada nota fosse irrelevante, como se cada dor não fosse lancinante,
como se houvesse alguma outra nova esperança como as esperanças de nunca ter sido criança.
Então me busco nas buscas irracionais e imorais pelos caminhos mais banais.
Busco a não-resposta pelas coisas que nunca fui e nunca tive, nunca vivi.
Mas no fim encontro apenas a cela,
não há nada, não há ela.
Desencontro meu coração, reencontro a suja prisão, me perco em uma mesma visão
e permaneço, permaneço calado em meu pecado, mudado.
E tudo haveria se eu tivesse gritado, pedido ajuda, mesmo sabendo que nada nunca muda,
nada nunca é, nada nunca é nada, nada nunca é.
Eu penso, fico propenso a um outro final, um outro canal, menos noturno, mais matinal.

Me procuro nas fotografias, me procuro em algum recanto da poesia, procuro alegria
e só encontro a tristeza, só encontro a falta, a vontade de nunca existir.
Não há fotos, não há rostos, não há, não ar.
Eu me sinto, me aperto em meu cinto e saio para rua, saio à procura da lua,
não a vejo, não a encontro, me perco, me mudo, me tudo.
Caio para um lado, caio para o outro, me faço o pecado de não pecar,
preciso de resultado, o resultado que tanto me pedem, que tanto me fedem.
Eu quero um outro meu, quero ser teu, quero que me caia em cheio o céu,
quero me enfiar e parar de respirar, quero parar, parar, parar.
Me rapto num movimento rápido, capto as outras intitulações que nunca me couberam, nunca vieram.
Caminho a uma outra parada na eterna madrugada,
nado à outra margem, me banho com a vagem que me leva sempre à mesma viagem sem retorno,
sempre no mesmo forno, no mesmo fosso, no mesmo osso, o mesmo crime doloso
de ser.

E eu não entendo, não compreendo, nem mesmo vendo enxergo,
eu não sei o que é, não sei como é, não sei o quanto é, não te posso quando me der,
não te possuo quando me quiser, não estarei quando vier, não poderei quando puder.
E eu corro, corro morro acima, morro e morro.
Morro no frio gélido e incalculável, causado pelo vento incontrolável, pelo desejo inevitável.

Peço um pedaço de pão apenas, um pouco de teu coração, um aperto de mão.
Um beijo quente e irreverente, um beijo que seja o único dos beijos.
Um abraço entre teus braços, um abraço que me viva, um abraço forte, um abraço da morte


domingo, 23 de dezembro de 2012

Em partes

Eu tenho forças,
mas como levantar uma pedra
sem as mãos?
Me amputaram as próprias mãos.
Eu tenho fé,
mas como posso caminhar
sem os pés?
Me amputaram os próprios pés.
Eu tenho coração,
mas como posso enxergar
sem os olhos?
Me arrancaram os próprios olhos.
Eu tenho amor,
mas como posso amar
sem o coração?
Me roubaram o coração

sábado, 22 de dezembro de 2012

Pelos velhos sonhos

Nos cantos mais escuros e empoeirados
foi que me guardei e me sujei de mim,
me refiz pra ti e te fiz o outro lado amado,
tentei te reencontrar e me despistar o fim.
Acabei-me então, acabei meu coração,
me inventei numa outra estação
e te esqueci na minha própria lembrança de não existir,
te desmereci na minha outra criança que sempre quis cair,
sempre quis desistir de não ser, de não viver.
E tive de permanecer, aguardar o melhor momento
para reiniciar aquele velho tormento
que nos foram a eterna infância
com a ânsia de amar, de desejar, de querer e não dizer.

Nós nos fizemos um outro ser
que apenas nós podemos entender,
apenas nós podemos viver e encantar,
apenas nós podemos amar

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A parte que te fui

Eu me perdi em meus papéis,
me criei em meus pensamentos infiéis.
Perdi meus cadernos de poesia
em algum outro antigo dia.
Eu me afoguei nas palavras,
me morri nos verbos invariáveis,
me comi as minhas larvas,
me banhei com minhas lágrimas descartáveis
e me tornei a outra parte sem arte e sem sentimento,
a parte que não tem coração,
a parte que se consome na própria sensação de ser sem viver.
Eu me tornei a outra parte irreconhecível,
te lancei as piores mágoas como um míssil,
te encarnei as minhas piores dores
e te desfiz todos os amores
num outro amor
que sempre foi apenas dor